Ao escalarmos nossa denúncia para o nível macro sobre o Enem 2024 e a prova de língua estrangeira, temos para nossa análise alguns mapas coropléticos, que compõem o que chamamos de Atlas da Geopolítico Linguístico da Exclusão Educacional Goiana, composto pelo Mapa de Densidade da Rede Pública, pelo Mapa da Exclusão e pelo Mapa de Prevalência do Inglês. Aqui, os mapas provam visualmente que a desigualdade educacional tem raízes territoriais, econômicas e logísticas profundas.
Mapa de Prevalência do Inglês
Na página inicial deste observatório começamos as discussões mostrando dados alarmantes a respeito da Distribuição de Acertos e a consolidação o cenário de terra arrasada em relação ao Espanhol no estado. O gráfico de frequências absolutas revelou que a moda — o valor mais frequente na distribuição de dados — para a prova de espanhol é zero, tanto para a rede pública quanto para a rede privada. Veja mais aqui.
Neste momento, começamos nossa analise macro observando como o estado de Goiás escolheu seu idioma na prova de 2024. Já sabemos pelo gráfico de Escolha de Idioma por Rede de Ensino no Estado de Goiás (veja aqui) demonstra que a escolha preferida dos goianos é o espanhol, com prevalência em 126 municípios, contra 116 municípios cuja maioria escolheu o inglês. Agora vamos conhecer esta distribuição entre os 20 municípios com mais candidatos que fizeram a prova do Enem 2024.
O mapa de Distribuição Geográfica da Escolha por Idioma atua como uma radiografia da prevalência do espanhol e do inglês nos municípios goianos. No espectro visual, a cor azul-escura representa a predominância da escolha pelo inglês, enquanto os tons de amarelo evidenciam a forte adesão ao espanhol.
Para a composição exclusiva desta tabela dos “Top 20” municípios (cuja preferência pelo inglês foi superior a 50%), aplicou-se um corte amostral de N>= 50. Esse critério delimitou a análise a municípios com pelo menos 50 candidatos totais (incluindo as redes pública e privada). O objetivo foi evitar distorções estatísticas com amostras muito pequenas — por exemplo, cidades com apenas dez alunos que fizeram a prova do Caderno Azul e escolheram majoritariamente um dos idiomas.
Nota: O Caderno Azul corresponde a aproximadamente 25% da prova do Enem 2024, que utiliza diferentes cores (Azul, Amarela, Branca, Verde/Rosa) para garantir a lisura do processo. Para mais detalhes sobre a mineração e análise metodológica dos dados, bem como acesso aos relatórios e ao script em Python utilizado, consulte a seção de Auditoria.)
O Mapa de Prevalência do Inglês, que ilustra a proporção de escolha pelo idioma de língua inglesa frente à população total de participantes, é uma ferramenta crucial para análise de dados. A visualização deste comprova que o inglês não está democratizado no estado. Salvo algumas exceções, as densas manchas azuis formam “ilhas” de concentração que coincidem com os polos do agronegócio e as regiões metropolitanas mais ricas. A tabela das vinte cidades com maior densidade de inscritos atesta essa fratura. Pires do Rio e Itumbiara, que lideram a performance da rede pública no estado, alcançam médias de apenas 1.868 e 1.839 acertos, respectivamente, em um total de 5. O “topo” do ensino estadual goiano reflete um índice de sucesso abismal de apenas 37%. Logo, tais indicadores atuam como um forte indício de capital cultural acumulado e expectativa de sucesso acadêmico. A distribuição dos vinte municípios com maior prevalência do idioma inglês estrutura-se da seguinte forma:
| Ranking Prevalência | Município | Escolha por Língua Inglesa (%) |
| 1º | Pires do Rio | 73.7% |
| 2º | Rio Verde | 71.1% |
| 3º | Itumbiara | 70.9% |
| 4º | Goiânia | 68.4% |
| 5º | Quirinópolis | 68.0% |
| 6º | Cristalina | 66.3% |
| 7º | Anápolis | 66.2% |
| 8º | Nerópolis | 65.5% |
| 9º | Jataí | 65.5% |
| 10º | Morrinhos | 64.8% |
| 11º | Jaraguá | 61.7% |
| 12º | Itapuranga | 61.5% |
| 13º | Ceres | 61.1% |
| 14º | Goianira | 60.8% |
| 15º | Caldas Novas | 60.6% |
| 16º | Catalão | 58.1% |
| 17º | Goianésia | 57.9% |
| 18º | Santa Helena de Goiás | 57.4% |
| 19º | Novo Gama | 56.4% |
| 20º | Bela Vista de Goiás | 56.0% |
Densidade de Acertos da Rede Pública Estadual
Em seguida, partimos para analisar o mapa de Densidade de Acertos da Rede Pública Estadual no Enem 2024. Esta é uma representação geográfica que ilustra a média de acertos (em um total de 5 questões) dos alunos matriculados nos colégios e CEPI de Goiás na prova de língua estrangeira do ENEM (além, é claro dos institutos federais que também ofertam a educação básica).
Ao analisar a imagem e cruzar com os dados da auditoria, este mapa serve como a principal prova visual do colapso no ensino público de idiomas no estado. Aqui estão os pontos mais críticos revelados por ele:
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O “Teto” de Desempenho é Baixíssimo: O ranking lateral (TOP 20) mostra que a cidade com o melhor desempenho na rede pública em todo o estado é Pires do Rio, que atinge uma média de apenas 1.9 acertos. Isso significa que o município líder não consegue acertar nem 40% de uma prova curtíssima.
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O Apagão Visual (Escala de Cores): A barra de legendas do mapa vai de 0.0 (branco) até um limite de 3.0 (verde-escuro). Como nenhuma cidade de Goiás conseguiu ultrapassar a média de 2.0 acertos, o mapa é dominado por tons verde-claros e áreas quase brancas. Essa mancha clara espalhada pelo território prova que a falência do ensino não é um problema de uma cidade ou outra, mas uma insuficiência crônica e sistêmica de toda a rede pública.
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A Estagnação dos Polos Ricos: Mesmo as cidades com alta injeção de riqueza do agronegócio e da indústria não conseguem refletir isso no ensino público. Itumbiara, Anápolis e Rio Verde estacionam na média de 1.8 acertos.
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O Atraso da Capital e do Entorno: Goiânia, que absorve o maior contingente de alunos do estado, tem uma média de apenas 1.63 na rede pública (arredondada para 1.6 no mapa). Cidades periféricas que compõem o entorno do Distrito Federal fecham o ranking do Top 20 com médias ainda piores, como Planaltina (1.4 acertos).
- Em termos de narrativa de denúncia, este mapa coroplético e tabela abaixo atestam que o estudante da escola pública goiana está nivelado por baixo. Independentemente de onde ele mora — seja no sudoeste rico, na capital ou nas periferias —, o Estado não está conseguindo instrumentalizá-lo para competir de forma justa no exame nacional.
Novamente, para a composição exclusiva desta tabela dos “Top 20 municípios” (cuja preferência pelo inglês foi superior a 50%), aplicou-se um corte amostral de N>= 50.
Ao cruzarmos o ranking das cidades com melhor desempenho na rede pública com o mapa de distribuição das instituições federais de ensino, a correlação é evidente:
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Itumbiara (2º lugar no ranking da rede pública com média 1.839) e Anápolis (3º lugar com média 1.782) possuem campi consolidados do Instituto Federal de Goiás (IFG) .
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Rio Verde (4º lugar com média 1.775), Morrinhos (6º lugar com média 1.691) e Ceres (13º lugar com média 1.583) abrigam campi do Instituto Federal Goiano (IF Goiano).
Na prática, esse número comprova que um aluno da elite goianiense acerta, em média, quase uma questão e meia a mais de inglês do que um aluno da escola pública em uma prova curtíssima de apenas 5 itens. Curiosamente observamos que os municípios goianos que sediam campi federais possuem números bem melhores que outros municípios. Para comprovar essa teoria, dados institucionais recentes mostram que os campi federais costumam dominar o topo das notas do estado. Um exemplo claro é o IF Goiano – Campus Iporá, que alcançou o primeiro lugar geral entre as instituições públicas de Goiás em edições do ENEM daquele ano (fonte: IFG).
A explicação para isso é que os Institutos Federais operam com uma realidade orçamentária e estrutural diferente das escolas estaduais comuns. Eles possuem corpo docente com alta titulação (mestres e doutores), infraestrutura de ponta e, fundamentalmente, aplicam processos seletivos (vestibulinhos) para o ingresso no Ensino Médio. Esse filtro de entrada acaba selecionando alunos que, mesmo dentro da esfera pública, já possuem um capital cultural maior e uma base de ensino fundamental mais forte. Como resultado, os alunos dos IFs puxam a média matemática da rede pública daquele município para cima, criando os tons de “verde-escuro” no mapa coroplético que destoam do restante da infraestrutura estadual.
A tabela a seguir expõe as vinte principais localidades mapeadas sob este critério de performance basal.
| Ranking Estadual | Município | Média de Acertos (Rede Pública) |
| 1º | Pires do Rio | 1.9 |
| 2º | Itumbiara | 1.8 |
| 3º | Anápolis | 1.8 |
| 4º | Rio Verde | 1.8 |
| 5º | Quirinópolis | 1.7 |
| 6º | Morrinhos | 1.7 |
| 7º | Goianira | 1.7 |
| 8º | São Luís de Montes Belos | 1.7 |
| 9º | Caldas Novas | 1.7 |
| 10º | Goianésia | 1.6 |
| 11º | Goiânia | 1.6 |
| 12º | Ceres | 1.6 |
| 13º | Santa Helena de Goiás | 1.5 |
| 14º | Posse | 1.5 |
| 15º | Jaraguá | 1.5 |
| 16º | Valparaíso de Goiás | 1.5 |
| 17º | Itapuranga | 1.5 |
| 18º | Aparecida de Goiânia | 1.5 |
| 19º | Catalão | 1.5 |
| 20º | Planaltina | 1.4 |
Até aqui, é possível constatar que a correlação entre os mapas e tabelas já apresentadas (Mapa de Densidade da Rede Pública e o Mapa de Prevalência do Inglês), estabelece um axioma vital para a narrativa do observatório: os municípios com maior propensão à escolha da língua inglesa (como Pires do Rio, Rio Verde e Itumbiara, todos superando a marca de 70% de adesão) também figuram no topo da performance da rede pública.
Mapa da Exclusão Linguística
Contudo, observamos algo que é comum a todos da rede pública: uma pequena quantidade de acertos que destoa da rede privada, com mais acertos. Esta “pequena” quantidade de acertos a mais é o que gera a exclusão social abordada neste relatório. Conforme ilustrado anteriormente nas imagens dos gráficos de “Impacto Social no Ranking Geral” (Boxplots – veja aqui), essa vantagem no inglês funciona como um critério de desempate implacável, empurrando os alunos da rede privada para o topo da lista de aprovados e derrubando drasticamente a posição (deslocamento negativo) dos alunos da rede pública no momento de concorrer a uma vaga na universidade.
Mas a verdadeira fratura geoeconômica de Goiás é exposta na análise combinada do Índice de Desigualdade (GAP) — a diferença exata entre o sucesso da elite privada e a miséria cultural da rede pública. O GAP de Desigualdade é uma métrica estatística utilizada no relatório para medir o tamanho do abismo educacional entre os estudantes de escolas particulares e de escolas públicas. Ele é calculado subtraindo-se a média de acertos da rede pública da média de acertos da rede privada (Média de Acertos de 0 a 5).
Por exemplo, o número específico registrado no município de Goiânia (1.391). Analisando os dados da capital:
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Os alunos da rede privada de Goiânia atingiram uma média de 3.02 acertos.
Os alunos da rede pública de Goiânia alcançaram uma média de apenas 1.63 acertos.
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A diferença entre eles (3.02 menos 1.63) resulta exatamente em 1.391.
Veja abaixo o mapa:
No coração metropolitano, Goiânia dita o ritmo da segregação em escala industrial. A super elite da capital garantiu uma média privada histórica de 3.02, estabelecendo um GAP brutal de 1.391 sobre a periferia pública que tenta sobreviver com uma média de 1.63. O inglês de elite blinda os cursos de medicina, direito e engenharias das universidades federais contra o ingresso da população de baixa renda.
| Ranking | Município | Concentração em Inglês | GAP de Desigualdade |
| 1º | Goiânia | 1.708 alunos | 1.391 |
| 5º | Rio Verde | 229 alunos | 1.049 |
| 11º | Jataí | 133 alunos | 1.528 |
Na contramão dessa riqueza concentrada, observamos a trágica anomalia do entorno. Em Planaltina (-0.446), Goianésia (-0.642) e Novo Gama (-0.618), o GAP “negativo” não é sinônimo de vitória do estado, mas da completa ausência de capital cultural. Nessas cidades esquecidas, a escola autodeclarada “privada” é tão sucateada quanto a pública, provando que o interior e o entorno do Distrito Federal padecem de um esgotamento sistêmico.
Além do Diagnóstico: A Necessidade de Inteligência de Dados
Chegar ao fim deste brevíssimo Atlas da Exclusão do Enem de 2024, conclui-se que o objetivo desta análise não é apenas confrontar números frios; é encarar o rosto de um sistema planejado para excluir. Quando comprovamos que o inglês atua como viés sociológico, destruímos a ilusão da meritocracia cega.
O Atlas evidencia que o estado opera integralmente sob um regime de insuficiência acadêmica na proficiência de línguas estrangeiras, indicando que as políticas de estado para a formação de professores e a elaboração de currículos falharam de maneira sistêmica.
A constatação dessa catástrofe exige muito mais do que lamentação. Gestores municipais e estaduais, bem como lideranças de redes educacionais comprometidas com os Direitos Humanos Linguísticos, necessitam de respostas urgentes. No enemsemfiltro.com, transformamos a auditoria em ferramenta de governança. Ao mapearmos com precisão cirúrgica as armadilhas de proximidade e os GAPs por município, fornecemos a inteligência de dados necessária para que prefeitos, secretários de educação e mantenedores escolares corrijam suas rotas curriculares antes que mais uma geração seja penalizada. Contra o algoritmo da exclusão social, somente o letramento científico de dados pode pavimentar o caminho da verdadeira equidade.
Att,
Prof. Johnatan Willow
Convido a todos os interessados a também conhecer e se aprofundar na justificativa e metodologia usada para auditar estes dados, na seção de Auditoria.


