Justiça linguística através de dados

O ENEM como Motor da Desigualdade em Goiás:

a Cartografia da Desigualdade do Inglês

Se o espanhol atua como uma armadilha silenciosa para os alunos da rede pública de Goiás, o idioma inglês opera como a mais brutal guilhotina do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). O verniz de equidade do maior exame de acesso ao ensino superior do país desmorona quando submetemos os microdados à lupa da auditoria psicométrica e territorial. A prova de língua inglesa não avalia a proficiência ensinada nas salas de aula brasileiras; ela afere, com precisão cirúrgica, o poder aquisitivo, o código postal e a capacidade de consumo cultural externo da família do candidato.

A denúncia científica que este relatório traz a público não se baseia em percepções subjetivas, mas no rigor do isolamento amostral do Caderno Azul (2024), garantindo que os dados reflitam exatamente o mesmo estímulo cognitivo submetido a todos os concluintes do estado de Goiás. O que os dados revelam é um escândalo institucionalizado: o inglês assumiu o papel de mecanismo algorítmico que serve de barreira intransponível para a base da pirâmide e de “escada” imbatível para a manutenção do privilégio das elites.

Nível Micro: A Fratura Codificada na Matriz da Prova

A segregação começa antes mesmo da abertura dos cadernos, na própria Escolha do Idioma por Rede de Ensino. A imagem dos dados no gráfico revela que, na rede privada, o espanhol é quase estatisticamente irrelevante (apenas 474 optantes), enquanto o inglês domina massivamente com 1.481 candidatos. A elite goiana não hesita porque sabe que domina o idioma. Na rede pública, contudo, a divisão é um reflexo do medo: 4.985 enfrentam o inglês, enquanto 4.186 fogem para a armadilha do espanhol. Observe que a escolha dos estudantes pela língua espanhola nos municípios ainda é predominante, sendo a escolha preferida em 126 municípios, contra 116 municípios cuja maioria escolheu o inglês, conforme dados analisados nos microdados no INEP 2024.

Escolha do Idioma por Rede de Ensino em Goiás no Enem 2024

E o que acontece com os corajosos estudantes de rede pública que tentam enfrentar o inglês na prova? A resposta é simples mas brutal: eles encontram uma guilhotina cruel, uma catraca de capital cultural que barra a grande maioria dos estudantes da rede pública. A imagem abaixo, da Distribuição de Acertos desenham o cenário de um “apartheid cultural”. A curva da rede pública bate em um muro, estagnando de forma aguda em uma moda de apenas 2 acertos (alcançada por 1.440 estudantes). Por outro lado, a rede privada não apenas acerta mais, ela transforma a excelência em padrão: sua moda é de impressionantes 4 acertos, com uma densidade volumosa de alunos gabaritando a prova (5 acertos).

Distribuição de Acertos de língua inglesa no ENEM 2024

O álibi governamental de que a prova de inglês seria “estruturalmente mais difícil” é desmascarado pela Dificuldade TRI (Parâmetro B). O mapa de calor (Heatmap) atesta que a prova de espanhol apresentou questões com índice de dificuldade “Muito Alto” (chegando a 1.880), enquanto as questões de inglês concentraram-se majoritariamente nas faixas “Média” e “Alta” (com picos de 1.127 e 0.886). A prova de inglês não é mais difícil para a máquina do INEP; ela só é impossível para quem depende exclusivamente do Estado para aprender.

Mapa de Calor das cinco questões balizadas pela Teoria de Resposta ao Item (TRI)

E se a gente juntar os níveis do CEFR com o sucesso no Enem?

Os números de acertos brutos, por si só, já configuram uma denúncia. No entanto, o verdadeiro escândalo pedagógico emerge quando traduzimos essas notas para a régua internacional do Quadro Comum Europeu de Referência para Línguas (CEFR). A Proficiência Estimada dos alunos goianos expõe a falência múltipla do currículo estadual de linguagens.  Dizemos Proficiência Estimada porque apesar da inexistência de normativas legais do INEP atrelando o ENEM ao CEFR, a afirmação de que o estudante necessita de um repertório B1/B2 não é uma falácia pedagógica; trata-se de uma inferência empírica robusta baseada na análise linguística do corpus do exame. Assim, há dois motivos importantes que inspiram esta observação: primeiramente, textos inseridos no ENEM geralmente são materiais autênticos projetados para consumo de falantes nativos ou fluentes. A decodificação de figuras de linguagem ou o processamento de sarcasmo político em tirinhas exige um léxico que suplanta largamente os descritores básicos do nível A1/A2. Além disso, extrair o propósito implícito, captar atitudes do autor ou distinguir a tese principal de evidências anedóticas são habilidades que a matriz do CEFR consolida especificamente na transição entre o topo do B1 e a solidez do B2.

Isto posto, constatamos através do gráfico abaixo sobre a Proficiência Estimada no CEFR dos candidatos do Enem 2024, que mais de 1/3 (32,9%) de toda uma geração de estudantes concluintes da escola pública não conseguem avançar mais que 1 acerto, sendo classificados no nível “Incipiente” (por volta do Pré-A1). Isso significa que quase um terço dos alunos custeados pelo Estado passaram três anos no Ensino Médio sem adquirir a capacidade cognitiva para ler uma frase simples, interpretar um vocabulário elementar ou decodificar uma placa em inglês. Simultaneamente, do outro lado do muro social, mais da metade dos alunos do setor privado educacional (54,0%) atinge com facilidade o que consideramos ser A2/B1 (Independentes). A escola privada colhe os frutos de institutos de idiomas extracurriculares, metodologias bilíngues, intercâmbios e consumo irrestrito de cultura globalizada. O ENEM, ao cobrar esse conhecimento no crivo classificatório, atua validando a desigualdade socioeconômica sob a falsa máscara do mérito acadêmico.

E se o inglês fosse uma variável retirada da equação?

Essa assimetria consolida o fenômeno do Impacto Social no Ranking Geral. No gráfico abaixo, que mostra o contraste por faixas de pontuação entre as redes de ensino na prova de Linguagens, vemos que o boxplot de deslocamento de posições denuncia a crueldade final: pelo método de pareamento, demonstrando que o inglês (ou melhor, a falta dele) atrasa o sonho da universidade de milhares de candidatos da escola pública, puxando sua média geral para baixo e promovendo a perda vertiginosa de posições no SISU.

Para compreender a gravidade destes gráficos, a metodologia compara alunos que possuem exatamente o mesmo desempenho nas outras áreas de conhecimento do exame. Este boxplot revela o que acontece quando colocamos lado a lado um aluno da rede pública e um da rede privada que atingiram a mesma excelência — por exemplo, a faixa de 500 a 600 pontos na disciplina principal de Linguagens (Português). A resposta visual é devastadora: o aluno da rede privada utiliza a nota máxima (5.0) no inglês como uma verdadeira “escada” competitiva, um critério de desempate implacável que o empurra para o topo do Sistema de Seleção Unificada (SISU). Em contrapartida, as caixas verdes do gráfico demonstram que o inglês “atrasa a vida” do candidato da escola pública. Mesmo os alunos de elite da rede estadual, que gabaritaram outras matérias, sofrem um deslocamento de posições vertiginoso para baixo no ranking geral. O idioma atua como um “teto de vidro” impenetrável; eles perdem a vaga não por incompetência acadêmica global, mas porque não puderam comprar o capital cultural exigido para ler e interpretar a língua estrangeira que, se não fosse por este capital cultural assegurado, observa-se que posição de um aluno médio de escola pública (que conseguiu 500 pontos no Enem) poderia ser guindada dezenas ou centenas de posições acima.

Toda a violência métrica detalhada nos níveis anteriores ganha sua dimensão mais sombria quando projetada no solo. Ao escalarmos nossa denúncia para o nível macro, deparamo-nos com o Atlas da Exclusão Educacional. Clique abaixo e continue nessa análise.

 

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