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O ENEM como Motor da Desigualdade em Goiás:

a Ilusão perversa do Espanhol

Denúncia: o Espanhol como o “armadilha de proximidade” do Enem 2024 – caderno azul

Historicamente, cristalizou-se a intuição de que a proximidade lexical entre o espanhol e o português mitigaria as deficiências estruturais da escola pública, oferecendo um caminho de menor resistência para a obtenção de pontos cruciais no exame. A auditoria das dezenas de gigabytes de microdados do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) consolidados para o estado de Goiás no ano de 2024 destrói empiricamente essa premissa. Dos 11.126 alunos válidos submetidos ao escrutínio analítico, uma expressiva parcela de 4.660 candidatos (aproximadamente 41,88% da amostra) optou por realizar a prova de língua espanhola. Essa adesão massiva atua como o preâmbulo de uma denúncia contundente. Este relatório do observatório Enem Sem Filtro evidencia que essa escolha é, na realidade, um reflexo do desespero acadêmico; os alunos fogem da barreira intransponível da língua inglesa e lançam-se em uma armadilha estatística. A gravidade deste cenário é exposta de forma inequívoca através do Sucesso Médio Geral por Idioma e Rede. A visualização do gráfico abaixo demonstra que a média aritmética de acertos em espanhol para a rede pública goiana é de excruciantes 0,50 pontos, em um total possível de cinco acertos. Simultaneamente, a rede privada registra uma média ainda mais residual de 0,25 pontos.

do Sucesso Médio Geral por Idioma e Rede

No me gusta español

O fato de as redes pública e privada apresentarem um desempenho que beira o zero absoluto constitui o primeiro choque observado aqui. Matematicamente, em uma prova objetiva com cinco alternativas por questão, o acerto de uma única questão (ou menos) configura um estado técnico de “chute estatístico”, correspondendo à pura probabilidade do acaso. Logo, intui-se que, a rede privada estadual pontua abaixo da rede pública no espanhol em 2024 simplesmente porque a elite não consome este idioma; as escolas de alto padrão direcionam todo o seu capital instrucional para o inglês (com cursinhos, intercâmbios e consumo cultural), tratando o espanhol como uma variável estatisticamente morta.

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Cenário de terra arrasada

Aprofundando a denúncia, a Distribuição de Acertos consolida o cenário de terra arrasada. O gráfico de frequências absolutas do espanhol no Enem revela que a moda — o valor mais frequente na distribuição de dados — para a prova de espanhol é zero, tanto para a rede pública quanto para a rede privada. No detalhamento volumétrico, impressionantes 2.592 estudantes da rede pública não conseguiram acertar sequer uma questão do idioma, seguidos por 1.189 que acertaram apenas uma. Na rede privada, 369 estudantes zeraram a prova de espanhol. Veja aqui que a exposição desses números neutraliza justificativas apaziguadoras e expõe o fato de que a língua estrangeira, sob a ótica do espanhol, é um território de desconhecimento mútuo. Nenhuma das redes ensina o idioma com eficácia mínima, e o Estado falha catastroficamente ao oferecer uma avaliação que não encontra lastro no desenvolvimento cognitivo real dos alunos.

Gráfico de frequências absolutas do espanhol no Enem

Facilidade ilusória

Para dissipar a noção de que o fracasso decorre unicamente da inabilidade dos alunos, este relatório incorpora a métrica de dificuldade balizada pela Teoria de Resposta ao Item (TRI). Esta TRI nada mais é que o modelo estatístico que o ENEM utiliza para calcular a nota, indo muito além da simples soma de acertos. Em vez de cada questão ter um valor fixo, o peso de cada resposta varia conforme o desempenho global do candidato, buscando medir a proficiência real. O sistema analisa o padrão de respostas. Ou seja, se o aluno acerta as fáceis e médias, mas erra as difíceis, sua nota é alta (este é o padrão coerente). Se o aluno acerta as difíceis, mas erra as fáceis, o sistema interpreta que houve um “chute”. O peso desses acertos difíceis é reduzido porque eles não condizem com o nível de conhecimento demonstrado. O parâmetro B mede a dificuldade, ou seja, ele indica o nível de proficiência necessário para ter 50% de chance de acertar a questão. Em resumo: no ENEM, quais questões você acerta é tão importante quanto quantas você acerta. A análise do Parâmetro B (Dificuldade TRI) do Caderno Azul de 2024 revela que a banca elaboradora instituiu armadilhas lexicais severas na prova de espanhol. Ao analisarmos o heatmap (mapa de calor) relativo à dificuldade de cada uma das cinco questões de espanhol e de inglês, vemos que a Questão 3 de espanhol, por exemplo, atingiu um índice de dificuldade de 1.880 (nível classificado como Muito Alto), enquanto a Questão 1 marcou 1.218. Em contrapartida, as questões de inglês, embora difíceis, apresentaram picos menos extremos (Questão 4 com 1.127 e Questão 5 com 0.886). Observa-se, então, que o espanhol não é estruturalmente mais fácil. O sistema induz o aluno vulnerável a acreditar em uma facilidade ilusória, apenas para submetê-lo a itens de altíssima complexidade teórica, caracterizando uma falha arquitetural profunda nas políticas de equidade e avaliação.

Mapa de Calor das cinco questões balizadas pela Teoria de Resposta ao Item (TRI)

Preparando o terreno para o que vem aí

A função retórica desta seção inicial do nosso site é, portanto, preparar o terreno para a evidência principal de nossa pesquisa em língua inglesa. Ao demonstrar que a elite das escolas privadas, dotada de recursos abundantes, também fracassa no espanhol, a auditoria isola metodologicamente o privilégio socioeconômico. A vantagem brutal que será posteriormente apresentada no desempenho do inglês não pode ser atribuída apenas ao fato de a escola privada ser “melhor em fazer provas” ou possuir professores mais capacitados de forma genérica. O diferencial absoluto reside no capital cultural externo à escola. O sucesso no inglês atua como uma procuração (proxy) do poder aquisitivo para frequentar institutos de idiomas extracurriculares, realizar viagens internacionais e consumir cultura globalizada.

Antes de mapearmos geograficamente esse abismo, é preciso fazer uma breve digressão sobre como chegamos a esses números, algo que será aprofundado nos relatórios técnicos deste relatório. Para garantir que esta denúncia tenha rigor científico inquestionável, a metodologia aplicada baseia-se em um protocolo estrito de Equivalência Estrutural. Extraímos as informações mineradas diretamente dezenas de gigabytes de microdados oficiais do INEP via script de python e isolamos uma amostra purificada de 11.126 concluintes em Goiás que realizaram exclusivamente o Caderno Azul (Matriz 1). Esse isolamento cirúrgico é vital para evitar que a ordem aleatória das questões em cadernos de outras cores corrompa a nossa análise de viés e dificuldade. Além disso, em um compromisso com a honestidade matemática, optamos por não aplicar suavizações estatísticas (como o método KDE) na visualização dos dados. O objetivo é exibir a fratura social em sua forma mais crua e real, sem maquiagens algorítmicas.

Com essa tese e esse rigor estabelecidos, o leitor possui todas as ferramentas para transitar em direção ao centro deste relatório: a relação dos goianos com a língua inglesa e o Atlas da Exclusão Geopolítica Linguística Goiana. Clique no botão logo abaixo ou no menu superior para conhecer mais do Observatório de Língua Inglesa que criamos.

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