“Getting Better Every Day”
O ENEM como Motor da Desigualdade em Goiás:
a Ilusão perversa do Espanhol
Denúncia: o Espanhol como o “armadilha de proximidade” do Enem 2025 e 2024 – caderno azul
Historicamente, cristalizou-se a intuição de que a proximidade lexical entre o espanhol e o português mitigaria as deficiências estruturais da escola pública, oferecendo um caminho de menor resistência para a obtenção de pontos cruciais no exame. A auditoria das dezenas de gigabytes de microdados do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) consolidados para o estado de Goiás no ano de 2025 e 2024 destroem empiricamente essa premissa. No relatório de auditoria de 2024, partindo de um universo nacional de 4.332.944 registros, o algoritmo filtrou com sucesso e isolou a amostra final de 11.126 estudantes validados em Goiás (sendo 9.171 vinculados à rede pública e 1.955 à rede privada), espalhados por 269 municípios, garantindo total capilaridade demográfica. Para o ano de 2025, a auditoria registrou a varredura de 4.810.772 inscritos no Brasil, culminando no isolamento perfeito de 11.827 candidatos goianos puros no Caderno Azul (9.973 da escola pública e 1.854 da rede privada). Esses números massivos e cientificamente robustos anulam qualquer possibilidade de viés de seleção ou flutuação estatística por amostragem insuficiente, conferindo ao presente trabalho o peso de uma constatação censitária. Em 2024, a rede pública (representada pela cor verde na Figura 1) amargou uma média de apenas 2,26 acertos, enquanto a rede privada (em roxo) alcançou 3,40. No ano seguinte, esse distanciamento se agravou: embora as escolas estaduais tenham apresentado um leve avanço para 2,49 acertos, a rede privada deu um salto expressivo para 3,71 (Figura 2). Esse contraste visual reflete como o idioma inglês opera como um “pedágio linguístico”, onde as notas mais altas estão atreladas ao poder aquisitivo e à imersão cultural proporcionada pelo mercado de ensino terceirizado. Por outro lado, o panorama sofre uma inversão drástica e reveladora nas barras referentes à prova de Espanhol, que atua como grupo de controle da pesquisa. Em ambos os gráficos, a rede pública supera o desempenho da rede privada. Em 2024, os estudantes da escola estadual registraram exatamente o dobro da média dos alunos da rede particular (0,50 acertos contra 0,25). Em 2025, a liderança da rede pública foi mantida, com uma média de 0,79 acertos contra 0,63 da rede privada.


No me gusta español
O fato de as redes pública e privada apresentarem um desempenho que beira o zero absoluto constitui o primeiro choque observado aqui. Matematicamente, em uma prova objetiva com cinco alternativas por questão, o acerto de uma única questão (ou menos) configura um estado técnico de “chute estatístico”, correspondendo à pura probabilidade do acaso. Logo, intui-se que, a rede privada estadual pontua abaixo da rede pública no espanhol nos dois anos consecutivos simplesmente porque a elite não consome este idioma; as escolas de alto padrão direcionam todo o seu capital instrucional para o inglês (com cursinhos, intercâmbios e consumo cultural), tratando o espanhol como uma variável estatisticamente morta.

Cenário de terra arrasada
Aprofundando a denúncia, a Distribuição de Acertos consolida o cenário de terra arrasada. O gráfico de frequências absolutas do espanhol no Enem revela que a moda — o valor mais frequente na distribuição de dados — para a prova de espanhol é zero, tanto para a rede pública quanto para a rede privada. No detalhamento volumétrico, impressionantes 2.592 estudantes da rede pública não conseguiram acertar sequer uma questão do idioma, seguidos por 1.189 que acertaram apenas uma. Na rede privada, 369 estudantes zeraram a prova de espanhol. Em 2025 o cenário não fica muito diferente (veja abaixo). Observa-se aqui que a exposição desses números neutraliza justificativas apaziguadoras e expõe o fato de que a língua estrangeira, sob a ótica do espanhol, é um território de desconhecimento mútuo. Nenhuma das redes ensina o idioma com eficácia mínima, e o Estado falha catastroficamente ao oferecer uma avaliação que não encontra lastro no desenvolvimento cognitivo real dos alunos.


Facilidade ilusória no ano de 2025
Para dissipar a noção de que o fracasso decorre unicamente da inabilidade dos alunos, este relatório incorpora a métrica de dificuldade balizada pela Teoria de Resposta ao Item (TRI). Esta TRI nada mais é que o modelo estatístico que o ENEM utiliza para calcular a nota, indo muito além da simples soma de acertos. Em vez de cada questão ter um valor fixo, o peso de cada resposta varia conforme o desempenho global do candidato, buscando medir a proficiência real. O sistema analisa o padrão de respostas. Ou seja, se o aluno acerta as fáceis e médias, mas erra as difíceis, sua nota é alta (este é o padrão coerente). Se o aluno acerta as difíceis, mas erra as fáceis, o sistema interpreta que houve um “chute”. O peso desses acertos difíceis é reduzido porque eles não condizem com o nível de conhecimento demonstrado. O parâmetro B mede a dificuldade, ou seja, ele indica o nível de proficiência necessário para ter 50% de chance de acertar a questão. Em resumo: no ENEM, quais questões você acerta é tão importante quanto quantas você acerta. A análise do Parâmetro B (Dificuldade TRI) do Caderno Azul de 2025 revela que a banca elaboradora instituiu armadilhas lexicais severas na prova de espanhol. Ao analisarmos o heatmap (mapa de calor) relativo à dificuldade de cada uma das cinco questões de espanhol e de inglês, vemos que as Questões 2 e 4 de espanhol, por exemplo, atingiu um índice de dificuldade de bastante alto (em marrom escuro), enquanto a Questão 1 marcou 0.792. Em contrapartida, as questões de inglês, embora difíceis, apresentaram vales de dificuldade ínfimos (como a Questão 5 com 0.186 e Questão 1 com 0.315). Observa-se, então, que o espanhol não é estruturalmente mais fácil. O sistema induz o aluno vulnerável a acreditar em uma facilidade ilusória, apenas para submetê-lo a itens de altíssima complexidade teórica, caracterizando uma falha arquitetural profunda nas políticas de equidade e avaliação.

E o de 2024?
O álibi de que a prova de inglês seria “estruturalmente mais difícil” é desmascarado pela Dificuldade TRI (Parâmetro B) também de 2024. O mapa de calor (Heatmap) daquele ano atesta que a prova de espanhol apresentou questões com índice de dificuldade “Muito Alto” (chegando a 1.880), enquanto as questões de inglês concentraram-se majoritariamente nas faixas “Média” e “Alta” (com picos de 1.127 e 0.886). A prova de inglês não é mais difícil para a máquina do INEP; ela só é impossível para quem depende exclusivamente do Estado para aprender.

Preparando o terreno para o que vem aí
A função retórica desta seção inicial do nosso site é, portanto, preparar o terreno para a evidência principal de nossa pesquisa em língua inglesa. Ao demonstrar que a elite das escolas privadas, dotada de recursos abundantes, também fracassa no espanhol, a auditoria isola metodologicamente o privilégio socioeconômico. A vantagem brutal que será posteriormente apresentada no desempenho do inglês não pode ser atribuída apenas ao fato de a escola privada ser “melhor em fazer provas” ou possuir professores mais capacitados de forma genérica. O diferencial absoluto reside no capital cultural externo à escola. O sucesso no inglês atua como uma procuração (proxy) do poder aquisitivo para frequentar institutos de idiomas extracurriculares, realizar viagens internacionais e consumir cultura globalizada.
Antes de mapearmos geograficamente esse abismo, é preciso fazer uma breve digressão sobre como chegamos a esses números, algo que será aprofundado nos relatórios técnicos deste relatório. Para garantir que esta denúncia tenha rigor científico inquestionável, a metodologia aplicada baseia-se em um protocolo estrito de Equivalência Estrutural. Extraímos as informações mineradas diretamente dezenas de gigabytes de microdados oficiais do INEP via script de python e isolamos uma amostra purificada de 11.126 concluintes em Goiás que realizaram exclusivamente o Caderno Azul (Matriz 1). Esse isolamento cirúrgico é vital para evitar que a ordem aleatória das questões em cadernos de outras cores corrompa a nossa análise de viés e dificuldade. Além disso, em um compromisso com a honestidade matemática, optamos por não aplicar suavizações estatísticas (como o método KDE) na visualização dos dados. O objetivo é exibir a fratura social em sua forma mais crua e real, sem maquiagens algorítmicas.
Com essa tese e esse rigor estabelecidos, o leitor possui todas as ferramentas para transitar em direção ao centro deste relatório: a relação dos goianos com a língua inglesa e o Atlas da Exclusão Geopolítica Linguística Goiana. Clique no botão logo abaixo ou no menu superior para conhecer mais do Observatório de Língua Inglesa que criamos.
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