Como professor de Inglês e Português na rede estadual de Goiás, uma das perguntas que mais escuto em sala de aula é: “Professor, devo escolher Inglês ou Espanhol no ENEM?”. Muitos alunos caem na armadilha de achar que o Espanhol é a opção mais segura pela semelhança com a nossa língua. Mas será que os dados confirmam essa lenda urbana?
Para responder a isso de forma definitiva e fugir dos “achismos”, fui direto à fonte. Como parte do meu projeto de mestrado, decidi abrir a “caixa-preta” do exame e analisar o Dossiê de Auditoria Psicométrica da Teoria da Resposta ao Item (TRI) do ENEM 2024, com foco na Matriz do Caderno Azul de Linguagens.
A Metodologia: Como extraímos os dados?
Para chegar a essas conclusões e garantir a qualidade da análise, realizei um funil de extração técnica bastante rigoroso. O processo ocorreu da seguinte forma:
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Partimos de um volume bruto do arquivo com 5.550 itens.
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Aplicamos um filtro para a área de Linguagens (LC), resultando em 1.500 itens isolados.
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Em seguida, filtramos especificamente o Caderno Azul, chegando a 30 itens validados.
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Dessa amostra, isolei os 10 itens válidos de língua estrangeira (sendo as Questões de 1 a 5 de cada idioma) para podermos fazer uma comparação direta e justa.
Entendendo o Parâmetro B da TRI
Antes de olharmos os resultados, precisamos entender como o Inep avalia as questões. Na TRI (Teoria de Resposta ao Item), o chamado Parâmetro B mede a dificuldade da questão. Em termos simples: quanto maior o valor numérico desse parâmetro, mais difícil é o item.
Os Resultados: O Fim do Mito do Espanhol Fácil
Se você observar o mapa de calor que gerei no Python, as surpresas começam a pular na tela. Os números provam que, no ENEM 2024, a escolha do idioma fez uma diferença brutal na nota.
A média global de dificuldade da prova de Espanhol foi de 0.8798, um valor consideravelmente mais alto do que a média global de Inglês, que ficou em apenas 0.6827. Essa diferença matemática gerou um “Gap de Exclusão” de -0.1971 na comparação entre os idiomas. Veja mais detalhes aqui.
Analisando o comportamento de cada questão individualmente, o abismo fica ainda mais evidente:
O terror da prova: A Questão 3 de Espanhol bateu o teto da dificuldade, registrando um Parâmetro B de 1.88032. Isso a coloca em um nível de dificuldade Muito Alta no nosso mapa de calor.
O alívio: Em contrapartida, a Questão 3 de Inglês foi extremamente acessível para os candidatos, com um índice de dificuldade de apenas 0.08809.
O Espanhol ainda apresentou outra questão bastante desafiadora (a Questão 1, com índice de 1.21829).
Já na prova de Inglês, o pico máximo de dificuldade ocorreu apenas na Questão 4, que atingiu 1.12690.
Conclusão e Próximos Passos
A ideia de que “Espanhol é mais fácil” caiu por terra. Os microdados de 2024 revelam que a prova de Espanhol exigiu um nível de proficiência, vocabulário e interpretação altíssimo, punindo os candidatos que escolheram o idioma baseados apenas no “portunhol”.
A integridade técnica desta etapa da pesquisa já foi totalmente auditada e confirmada. O próximo passo deste nosso projeto será cruzar esses índices com uma Análise Geográfica. O objetivo é mapear como essa diferença brutal de dificuldade impactou a nota de exclusão educacional em diferentes regiões.
Fique ligado aqui no Enem Sem Filtro para as próximas atualizações da pesquisa!